domingo, 13 de março de 2011

...

O mEU, o tEU, o sEU. O nosso EU refletido na grandiosidade da vida, nos detalhes do existir e do refletir.







Fonte da imagem: retirada do site do Instituto Superior Técnico - Universidade Técnica de Lisboa. 

Tudo sobre você - Zélia Duncan

Queria descobrir
Em 24h tudo que você adora
Tudo que te faz sorrir
E num fim de semana
Tudo que você mais ama
E no prazo de um mês
Tudo que você já fez
É tanta coisa que eu não sei

Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você
Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você

E até saber de cor
No fim desse semestre
O que mais te apetece
O que te cai melhor
Enfim eu saberia
365 noites bastariam
Pra me explicar por que
Como isso foi acontecer

Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você
Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você

Por que em tão pouco tempo
Faz tanto tempo que eu te queria


domingo, 12 de setembro de 2010

Fabrício Carpinejar

Eu entendo você, mas não alivio. Está tão acostumada a mergulhar em seu sofrimento, que perdeu o lugar onde dói. Talvez o que doa esteja fora e você nem reparou.


Extraído de: http://adoce-com-limao.blogspot.com

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Padre Fábio de Melo

  Quanto tempo sem aparecer por aqui! Sempre passo por meu cantinho, mas com tamanha pressa que nem posso deixar um pouco de mim. Leio, sempre que possível, as postagens dos blogs amigos. Continuam fantásticas! 
  Escolhi um trecho de Pe. Fábio de Melo. Espero que de alguma forma ele possa tocar em vocês. Me esforçarei na tentativa de me manter mais presente e realizar com mais frequência minhas postagens. Obrigada sempre pelo carinho. Abraço!


VIR A SER
Eu procuro por mim.
Eu procuro por tudo o que é meu e que em mim se esconde.
Eu procuro por um saber que ainda não sei, mas que de alguma forma já sabe em mim.
Eu sou assim...
processo constante de vir a ser.
O que sou e ainda serei são verbos que se conjugam sob áurea de um mistério fascinante.
Eu me recebo de Deus e a Ele me devolvo.
Movimento que não termina porque terminar é o mesmo que deixar de ser.
Eu sou o que sou na medida em que me permito ser.
E quando não sou é porque o ser eu não soube escolher.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Paulo Leminski

Hai Kai


HAI

       Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
       o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me,
       ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
       eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.
KAI

       Mínimo templo
para um deus pequeno,
       aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
       meu extremo anjo de vanguarda.

       De que máscara
se gaba sua lástima,
       de que vaga
se vangloria sua história,
       saiba quem saiba.

       A mim me basta
a sombra que se deixa,
       o corpo que se afasta.

[do livro Distraídos Venceremos]

terça-feira, 20 de julho de 2010

Verônica H.

"Desisti de sustentar uma imagem e procurar o amor da minha vida no caminho. Quem quiser olhar pra mim vai ter que se conformar com minhas Havaianas roxas e meu cabelo despenteado, minha desatenção e minha falta de correspondência. Ando abatida e pensando demais."

(Extraído do bloghttp://adoce-com-limao.blogspot.com/ )

terça-feira, 13 de julho de 2010

Vinicius de Moraes

Bom, ando meio sumida. Reflexos das férias! Mas hoje busquei uma poesia de Vinicius de Moraes, grande poeta, com muito carinho.



A anunciação
Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlintlin?
Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Ana Jácomo

Como se fosse o último

Quem dera eu aprendesse a viver cada dia como se fosse o último. O último para dizer “obrigada”. O último para dizer “me desculpa”. O último para dizer “eu te amo”. O último para abraçar cada pessoa amada com aquele abraço bom que faz um coração cantar para o outro. O último para apreciar a vida com o entusiasmo que não guarda nenhuma delícia nem ternura pra depois. O último para fazer as pazes. Para desfazer enganos. Para saborear com calma, como se me servissem um banquete, a preciosidade genuína que cada único respiro humano representa.
Quem dera eu aprendesse a viver cada dia como se fosse o último. O último pra esquecer tolices. O último para ignorar o que, no fim das contas, não tem a menor importância. O último para rir até o coração dançar. O último para chorar toda dor que não transbordou e virou nódoa no tecido da vida. O último para aprontar todas as artes que a emoção quiser. O último para ser útil em toda circunstância que me for possível. O último para não deixar o tempo escoar inutilmente entre os dedos das horas.
Quem dera eu aprendesse a viver cada dia como se fosse o último. O último para me maravilhar diante de cada expressão da natureza com o olhar demorado de quem olha pela primeira vez. O último para ouvir aquela música que acende sóis por toda a extensão da minha alma. O último para ler, de novo, o poema que diz tanto de mim que eu me sinto caber nos olhos do poeta que o escreveu. O último para desembaraçar os fios emaranhados dos medos que me acompanham.
Quem dera eu aprendesse a viver cada dia como se fosse o último. Eu não perderia uma chance para me presentear com os agrados que me nutrem. Eu criaria mais oportunidades para dizer o meu amor. Para expressar a minha admiração. Para destacar para cada pessoa a beleza singular que ela tem. Para compartilhar. Eu não adiaria delicadezas. Não pouparia compreensão. Não desperdiçaria energia com perigos imaginários e com uma série de bobagens que só me afastam da vida.
Quem dera eu aprendesse a viver cada dia como se fosse o último, porque pode ser.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Poesia...

Hoje resolvi fazer uma postagem diferenciada, que foge àquelas feitas normalmente por mim. Abaixo estão imagens belas e que exprimem um pouco da magnitude da vida. Os pequenos detalhes que poucos conseguem enxergar no meio à tanta correria.

Imagens do blog http://cimpoacalaurentiu.blogspot.com, do amigo Laurentiu Cimpoaca Bucuresti:














sexta-feira, 11 de junho de 2010

Manoel de Barros

Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando infante. Agora nossos irmãos, nosso pai, nossa mãe e todos moramos no rancho de palha perto de uma aguada. O rancho não tinha frente nem fundo. O mato chegava perto, quase roçava nas palhas. A mãe cozinhava, lavava e costurava para nós.

Trecho do livro Memórias inventadas: a segunda infância.

sábado, 5 de junho de 2010

Afonso Félix de Sousa

Auto-retrato

A maneira de andar
como quem busca
estrelas pelo chão.
A cabeça a dar contra os muros.
Em cada olho, o mundo como um punhal
- cravado.
O pensamento a abrir estradas
numa várzea distante.
Os ângulos do sonho formando orlas
povoadas de fêmeas
que a meu encontro viriam
do outro lado, em lânguidas posturas.
Diante do mar, a sede, a sede
de beber a vida em infinitas viagens.
As garras de gato ante paredes impostas.
A impaciência de que chegue a manhã e a praia,
a tarde e o amor.
A maneira de andar
como a fugir dos homens
- e tê-los contra o peito.
O pensamento a atirar pedras
contra as vidraças
que guardam os produtores frios
de injustiças.
O coração que bate
ao som de fábulas.
Que bate
contra rochedos mortos
numa praia de cinza
onde palpita o primeiro amor.

coração eterno.
O amor eterno
que bate.
A alegria! A alegria!
Íntima, espantada de si mesma, gloriosa
como palmas a se abrirem aos quatro ventos,
a alegria de sentir-me vivo, a alegria
de bicho do mato, criança, dominada,
eterna.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Affonso Romano de Sant'Anna


O cronista é um escritor crônico
O primeiro texto que publiquei em jornal foi uma crônica. Devia ter eu lá uns 16 ou 17 anos. E aí fui tomando gosto. Dos jornais de Juiz de Fora, passei para os jornais e revistas de Belo Horizonte e depois para a imprensa do Rio e São Paulo. Fiz de tudo (ou quase tudo) em jornal: de repórter policial a crítico literário. Mas foi somente quando me chamaram para substituir Drummond noJornal do Brasil, em 1984, que passei a fazer crônica sistematicamente. Virei um escritor crônico.

O que é um cronista?

Luís Fernando Veríssimo diz que o cronista é como uma galinha, bota seu ovo regularmente. Carlos Eduardo Novaes diz que crônicas são como laranjas, podem ser doces ou azedas e ser consumidas em gomos ou pedaços, na poltrona de casa ou espremidas na sala de aula.

Já andei dizendo que o cronista é um estilita. Não confundam, por enquanto, com estilista. Estilita era o santo que ficava anos e anos em cima de uma coluna, no deserto, meditando e pregando. São Simeão passou trinta anos assim, exposto ao sol e à chuva. Claro que de tanto purificar seu estilo diariamente o cronista estilita acaba virando um estilista.

O cronista é isso: fica pregando lá em cima de sua coluna no jornal. Por isto, há uma certa confusão entre colunista e cronista, assim como há outra confusão entre articulista e cronista. O articulista escreve textos expositivos e defende temas e idéias. O cronista é o mais livre dos redatores de um jornal. Ele pode ser subjetivo. Pode (e deve) falar na primeira pessoa sem envergonhar-se. Seu "eu", como o do poeta, é um eu de utilidade pública.

Que tipo de crônica escrevo? De vários tipos. Conto casos, faço descrições, anoto momentos líricos, faço críticas sociais. Uma das funções da crônica é interferir no cotidiano. Claro que essas que interferem mais cruamente em assuntos momentosos tendem a perder sua atualidade quando publicadas em livro. Não tem importância. O cronista é crônico, ligado ao tempo, deve estar encharcado, doente de seu tempo e ao mesmo tempo pairar acima dele.

12/6/88
Texto extraído do jornal "O Globo" - Rio de Janeiro. In: http://www.releituras.com/arsant_ocronista.asp

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Lewis Carroll

"Alice no País das Maravilhas" me fascina. É uma obra completa, que questiona através do personagem Alice nosso próprio conceito do "quem sou?" e nos leva à fantasia e à viagem interior. Abaixo, há um texto extraído do blog http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/ e que faz uma análise psicanalítica da Alice de Tim Burton. 

Alice no filme de Tim Burton nos diz várias vezes que aquilo não era um sonho, pois não adiantava se beliscar, mesmo que com força. Ela não acordava do sonho. Aquele era um mundo subterrâneo real e não um sonho. Um mundo ao qual ela já tinha ido, que ela já visitara várias vezes, mas do qual não se lembrava e que precisava se lembrar para saber se ela era ela. Criada por Lewis Carroll décadas antes dos escritos de Freud, Alice nos faz conhecer o mecanismo mental da repressão. 
Para entrar neste mundo ela precisa ser simultaneamente adulta para pegar a chave e pequena para passar pela portinhola. Precisa encontrar uma solução e conviver com esta ambigüidade. Ser simultaneamente adulto e poder regredir faz parte inevitavelmente de todo processo de psicanálise. Neste mundo mágico, onde domina a fantasia, por vezes Alice é muito grande, pode tudo, onipotente. Por vezes é frágil, muito pequena, menor que uma criança pequena. Neste mundo vai encontrar seus fantasmas, os monstros que a aterrorizam e vai tentar superar seus conflitos. Como ser sempre boa se é necessário enfrentar e derrotar o monstro cortando-lhe a cabeça? Portanto precisa reconhecer que não é tão boa quanto acredita e que precisa de sua agressividade para preservar a vida. Então quem é Alice afinal? Como ela mesmo diz no livro de Lewis Carrol: “não sei explicar nem a mim mesma porque eu não sou eu, compreende?”
A busca por encontrar sua verdade e sua necessidade de transformação para tornar-se alguém de quem ela mesma goste, nos é dito pela própria um pouco mais adiante: “... e não adianta virem se pendurar na beirada e me dizer: Suba minha querida! Não vou nem olhar para eles. Vou só dizer: Primeiro digam quem sou. Se achar que me serve ser esta pessoa subirei. Senão, ficarei aqui em baixo até virar de novo alguém que valha a pena.”
Estas palavras nos são ditas de uma forma ou de outra por todos aqueles que mergulham no fundo de seu poço, penetram no seu mundo subterrâneo e adquirem a certeza que apenas lá encontrarão suas respostas. Nisto surge o chapeleiro maluco que estabelece uma incomum parceria com Alice. Ele cuida das coisas da cabeça e é claro não poderia ser lá muito normal. Mas esta parceria é essencial para que os caminhos no mundo subterrâneo possam ser realizados. Ele conhece os caminhos até porque já os trilhou e assim pode acompanhá-la. Esta idéia não é nova. Dante só consegue descer aos seus infernos guiado pela mão de Virgilio. 
Quando Alice está mergulhada neste mundo fantástico, que tem lá a sua coerência, que não é necessariamente a do mundo da superfície, ela descobre algo fascinante ao se deparar com um monstro terrível que a ameaça quando vai buscar a espada. E, mais ainda, a chave do cadeado está no pescoço do monstro. Ela devolve a ele seu olho que lhe tinha sido tirado e neste instante o gesto de amor mitiga o ódio e o monstro se coloca ao lado dela, trata de sua ferida no braço e a ajuda a enfrentar as dificuldades e os demais inimigos. Esta é verdadeira chave que liberta. A pulsão de vida mitiga a pulsão de morte e a agressividade se torna um instrumento a favor da vida. Mas ela precisa resolver ainda um problema: como lidar com as rainhas (mães?) boa e má? Como administrar isto dentro de si? Lewis Carroll parece ter lido Melaine Klein 80 anos antes dela ter escrito seus trabalhos. 
Quando Alice está próxima de enfrentar seu terrível monstro ela vai adquirindo seu tamanho real. Nem onipotentemente grande, nem fragilmente pequena. Após sua vitória, a solução dos conflitos, pode deixar para trás o chapeleiro maluco, com uma certa saudade e retorna a vida de superfície, onde não lhe é difícil agora resolver todas as suas questões. E Tim Burton sagazmente acrescenta a historia original a viagem à China, um enorme ampliar de horizontes. 
José Renato Avzaradel: psiquiatra e Membro Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Oração ao tempo


És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...
O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...
Caetano Veloso

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Marcello Ricardo Almeida


Canção de feriado
(...) Onde? Aonde levar
essas crianças?
Na casa do sapo ou
na cama do grilo; e
chamar Dona Coruja
para elogiar todos
seus diletos filhos.
Pois mais vale um gosto
que dez mil réis
em cada um dos bolsos.
Onde? Aonde levar
essas crianças?
Corre atrás da delegada!
Não está. E o magistrado?
Procura-se uma resposta.
As crianças que nem gado,
à beira da vida, semimortas,
perambulam aí às moscas.
E a vida vai-se passando
feito uma das poesias
de Florbela Espanca;
sem as aventuras
de Robinson Crusoé;
sem ao menos sonhar
na Ilha do Tesouro.
Quem dirá viver a magia
no País das Maravilhas.
Nem Lobato, nem Esopo.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Martha Medeiros


Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava, você é os nervos a flor da pele no vestibular, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra. 
Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora. 
Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pelo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda. 
Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima. 
Você é aquilo que reinvidica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia. 
Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Selo comentarista excelente


Esse selo dedico a todos aqueles que sempre visitam meu blog e deixam com grande carinho seus comentários. Todos são extremamente dignos de recebê-lo. A vocês, o "selo comentarista excelente". Aproveito ainda para agradecer as visitas, aqueles que me seguem, destinam parte de seus tempos na leitura de minhas divagações e à querida Sílvia, pessoa especial que me presenteou com esse selo.  Sinta-se, Sílvia,  como se o tivesse recebido em seu blog e com grande carinho. 
Grande abraço!

domingo, 25 de abril de 2010

Mário Quintana

I. DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

II. DO AMIGO

Olha! É como um vaso
De porcelana rara o teu amigo.
Nunca te sirvas dele... Que perigo!
Quebrar-se-ia, acaso...

III. DO ESTILO

Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.

IV. DA PREOCUPAÇÃO DE ESCREVER

Escrever... Mas por quê? Por vaidade, está visto...
Pura vaidade, escrever!
Pegar da pena... Olhai que graça terá isto,
Sejá se sabe tudo o que se vai dizer!...

V. DAS BELAS FRASES

Frases felizes... Frases encantadas...
Ó festa dos ouvidos!
Sempre há tolices muito bem ornadas...
Como há pacovios bem vestidos.



VI. DO CUIDADO DA FORMA

Teu verso, barro vil,
No teu casto retiro, amolga, enrija, pule...
Vê depois como brilha, entre os mais, o imbecil,
Arredondado e liso como um bule!

VII. DA VOLUPTUOSIDADE

Tudo, mesmo a velhice, mesmo a doença,
Tudo comporta o seu prazer...
E até o pobre moribundo pensa
Na maneira mais suave de morrer...

VIII. DOS MUNDOS

Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.

IX. DA INQUIETA ESPERANÇA

Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dês o Céu... quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório...

X. DA VIDA ASCÉTICA

Não foge ao mundo o verdadeiro asceta,
Pois em si mesmo tem seu próprio asilo.
E em meio à humana turba, arrebatada e inquieta,
Só ele é simples e tranqüilo.



XI. DAS CORCUNDAS

As costas de Polichinelo arrasas
Só porque fogem das comuns medidas?
Olha! quem sabe não serão as asas
De um Anjo, sob as vestes escondidas...

XII. DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis.., ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

XIII. DO BELO

Nada, no mundo, é, por si mesmo, feio.
Inda a mais vil mulher, inda o mais triste poema,
Palpita sempre neles o divino anseio
Da beleza suprema...

XIV. DO MAL E DO BEM

Todos têm seu encanto: os santos e os corruptos.
Não há coisa, na vida, inteiramente má.
Tu dizes que a verdade produz frutos...
Já viste as flores que a mentira dá?

XV. DO MAU ESTILO

Todo o bem, todo o mal que eles te dizem, nada
Seria, se soubessem expressá-lo...
O ataque de uma borboleta agrada
Mais que todos os beijos de um cavalo.


Espelho Mágico, 1945

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Fagundes Varela

A Flor do Maracujá 

Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do Sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá !
Pelo jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá,
Pelas gotas de sereno
Nas folhas do gravatá,
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá.

Pelas tranças da mãe-d'água
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá.

Pelas azuis borboletas
Que descem do Panamá,
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá,
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá !

Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá !
Pelas florestas imensas
Que falam de Jeová !
Pela lança ensangüentado
Da flor do maracujá !

Por tudo que o céu revela !
Por tudo que a terra dá
Eu te juro que minh'alma
De tua alma escrava está !!..
Guarda contigo este emblema
Da flor do maracujá !

Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em - a -
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Drummond e Adélia Prado

Resolvi postar dois poemas. Um de Drummond e outro de Adélia Prado. Temáticas diferentes, estruturas parecidas, enfim, a poetisa dialoga com o "Poema de Sete Faces" de Drummond e realiza um interessantíssimo trabalho com as palavras.


Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade
__________________________________________

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado