domingo, 28 de março de 2010

A subida


Abaixo um conto de Fábio Rocha cheio de inspiração e com 'sabores' românticos. 


Sérgio subia o morro ao entardecer. Sozinho. Carregava apenas uma mochila. A cada passo parecia tentar deixar seu passado lá pra baixo. Os problemas, as dores, os amores e o tédio iam ficando. O céu estava maravilhoso, entre o rosa e o roxo. Ventava meio frio. E ele gostava.
Que o leitor não pergunte por que ele resolvera subir ali... Estava de férias, nada de bom pra fazer, e ele sempre admirou aquele morro próximo de seu prédio. Passou horas de sua vida admirando aquela paisagem de longe, da janela. Algo faltava em sua vida. E algo o atraía no morro. Então, resolveu ir até lá.
Chegou no cume. Ajeitou seu saco de dormir e sentou-se nele. Riu ao notar que agora a vista era seu prédio e vários outros, formando uma camada acinzentada e irregular entre a área verde que cercava sua cidade. Havia poucas árvores no alto do morro e a visibilidade era ótima. Cansado pela subida, bebeu um pouco de água do cantil e deitou-se. Ficou admirando o céu, agora mais escuro. Sentiu certa paz... Tranqüilidade... Mas, como sempre, a falta de alguma coisa. Viu alguns meteoros e caiu no sono.
Acordou meio assustado. Não sabia quanto tempo tinha ficado dormindo. Mas tinha algo estranho com aquele lugar. Algo diferente, mas não sabia o que... Acendeu a lanterna e se levantou. A sensação continuava, mas nem ele nem o foco de luz achavam respostas. Ouviu um barulho no mato e foi verificar.
Notou que estava com medo. E que andar na escuridão absoluta no meio de um matagal era mais aterrorizante do que pensara. Ainda mais sozinho. Sentia medo do que a lanterna poderia iluminar a qualquer momento. Viu uma luz à esquerda e sentiu um arrepio. Apagou a sua lanterna e foi na direção da luz, devagar.
Que alívio sentiu ao ouvir uma voz feminina cantarolando... "É primaveeeera... Te amo..." Ligou a lanterna e foi se chegando, cantando também. A menina disfarçou o susto que tinha tomado e perguntou o que ele fazia ali.
"Tô acampando e você?"
"Eu também... Estranho. Acampo sempre perto daqui e nunca vi ninguém nesse morro. Hoje é a primeira vez que resolvo acampar aqui e me aparece um cantor..."
"É a primeira vez que venho. Eu via o morro do meu prédio e resolvi passar a noite aqui hoje. Sou meio louco, sabe? Não liga não."
"Que ótimo saber que estou sozinha com um louco aqui..."
Os dois riram e ele notou que ela era simplesmente linda... Sua face, com a luz da fogueira, parecia meio etérea. Às vezes até parecia meio radiante... Ele esfregava os olhos e tudo voltava ao normal. Se apresentaram e começaram a conversar. Incrível como tinham os mesmos gostos pra quase tudo que falavam. Mas que brilho era aquele em seus olhos?
Tudo parecia bom demais pra ser verdade. Após passar quase um ano se torturando nessas boates e só encontrando mulheres que nada lhe diziam, num morro, no meio do mato, achou aquela perfeição. Foram conversando mais de perto, ela reclamou do frio e ele a abraçou. Seus olhos, de perto eram de um verde ainda mais mágico, poético, absurdamente lindos. Ele se aproximou mais e os portais verdes se fecharam vagarosamente. O beijo era simplesmente...
Acordou. Será que ele tinha desmaiado? Olhou ao redor e estava no seu saco de dormir. Não conseguia acreditar que tudo aquilo tinha sido um sonho... Os olhos verdes... O nome: Ana... Tudo perfeito. Se sentiu tolo por se apaixonar por um sonho... Foi até o local onde ela tinha acampado e ele não existia, muito menos fogueira. Nada.
Desceu o morro pior do que quando tinha subido e voltou pra sua casa, lembrando todos os detalhes oníricos... Nunca teve um tão realista. Nunca achou ninguém tão perfeito... Tinha que ver logo que era sonho.
As aulas voltaram e não conseguia esquecer de Ana. Fez vários desenhos dela e espalhou pelo seu quarto. Contou a história pros seus amigos, que acharam uma loucura... Toda noite rezava pra sonhar com ela e não conseguia. Aliás, era muito raro lembrar de seus sonhos. Aquele foi mesmo especial... Seus pais estavam preocupados. Nem comer direito ele comia. Estava ficando maníaco com aquilo.
Um dia, no meio da aula de Literatura, lembrou que ela disse que acampava sempre perto daquele morro, certamente na floresta próxima. Mas ela era um sonho! E daí? Ele estava tão apaixonado que resolveu ir dormir na floresta aquela noite. Talvez lá, pelo menos sonhasse com ela de novo. "Há mais coisas entre o céu e a terra..."
E lá foi Sérgio, ao entardecer, na busca desesperada do que sabia nunca poder encontrar. A floresta parecia novamente ameaçadora, mas tinha resolvido dormir lá e entrou pelo meio do mato. Não muito, pra não se perder. Arrumou suas coisas, se deitou e tentou de novo pedir uma ajuda divina pra encontrar sua paixão. Riu ao notar que nunca tinha sido religioso até toda essa loucura. E ouviu uma voz. Alguém cantava distante: "É primaveeeeera... Te amo..." Levantou, sorridente, e, sem acreditar na coincidência absurda, entrou correndo pelo mato, guiado pelo som.
Viu uma barraca próxima e que a voz vinha de lá. Uma fogueira. Foi se aproximando. O cabelo era loiro e liso como o dela, mas estava de costas...
"Ana?"
Ela se virou.
"Quem é voc... Meu Deus... Sérgio? Eu sonhei com você!"
Era mesmo ela. Olhos verdes, corpo lindo, rosto perfeito... Ele se aproximou.
"Eu também, meu amor..."
E continuaram o beijo interrompido. Uma pequena luz oval, alaranjada e estranha passou por cima dos dois, zunindo baixinho. Saiu da fogueira e subiu aos céus, se perdendo entre as muitas estrelas. Não foi notada. Pelo menos por eles.

2 comentários:

  1. Um conto com um jeitinho adolescente de ser. Fábio é mesmo um amor.

    Beijo, Renata.

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